Observo Casa Sobre a Ponte, de Diego Rivera. Deixo que o olhar se demore, que a tela respire e fale antes que a razão se imponha. No corpo, ergue-se uma inquietude; a emoção, livre, desfaz as teias da racionalização. O olhar, já cativo, segue a claridade que se insinua para lá da lua escura, no ponto onde a casa encontra o rio. Essa lua, de súbito, transfigura-se em rosto de mulher submersa em silêncio, prisioneira entre reflexos comprimidos.
Ali — ou aqui, ou… — sufoca-me o peso do espaço e do tempo: paredes altas, janelas cerradas, um muro robusto. Coloco-me no lugar do artista e caminho por uma rua estreita, ladeada de fachadas gastas pelas horas que não regressam. À frente, outra ponte, como as de Veneza, mas sem saída. Não une margens: oferece apenas o instante e exige o olhar.
Um clarão mental convoca O Grito, de Munch. Levo as mãos à cabeça, abro os maxilares até ao limite e solto um grito surdo, encarnando a figura. Enquanto isso, o pintor verte pinceladas largas no muro à minha direita. A árvore, cúmplice do nosso frenesim, agita os ramos em gritos entrelaçados. “Enlouqueçamos juntos… ou libertemo-nos das raízes que nos prendem”, penso.
O instinto não confia na quietude das águas, nas cores quase quentes, no silêncio suspenso das janelas fechadas. Nem o reflexo do sol sobre o rio — que molda um corpo de mulher-animal sustentando entre os braços a circularidade do mundo — nem as buganvílias de cor de fogo que escalam a parede e extravasam o limite do quadro trazem paz ao cocriador.
Perante a obra, adivinho e recrio as emoções do pintor, refletindo-me nelas. Somos espelhos diante de realidades irreais, mas tangíveis. Partilhamos memórias e atravessamos as mesmas inquietações. A estagnação que brota da tela desassossega. Apenas a luz — para lá das paredes sombrias e do arco da ponte — fala de esperança: do regresso ao ventre materno, à casa como travessia, ao renascer. Num eterno retorno à promessa da luz.
C.Oliveira, 10-2011
Obra: Casa sobre a Ponte - Diego Rivera, ca. 1909. Óleo sobre tela. 147 x 120 cm. Museu Nacional de Arte, MUNAL - INBA, México DF. México.
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